Como vencer um debate sem precisar ter razão

 
Dialética Erística de Schopenhauer
 
 
 

 

“Aquele que sai vencedor de uma discussão deve-o,

muitas vezes, não tanto à veracidade

dos juízos expostos em suas proposições,

quanto à astúcia e à destreza com que os defende”

 

O grande filósofo alemão Arthur Schopenhauer nos presenteia com esse brilhante tratado sobre as artimanhas derivadas da própria maldade humana. Um “manual de patifaria”, como já o chamaram, é um trabalho inconcluso do filósofo. Publicado postumamente, a obra não ostentava nem um título. Foi organizada e publicada por um amigo de Schopenhauer a partir de manuscritos. Talvez ele não tivesse escrevido a obra com o fim de publicá-lo, mas apenas como uma arma contra aqueles que se posicionavam contra sua filosofia, notadamente Hegel.

A dialética de Schopenhauer difere da de Aristóteles e de Hegel. Schopenhauer vê a dialética erística como o debate em si, a querela da qual se quer obter a vitória, sem importar o lado que está com a razão. A dialética erística seria a esgrima intelectual, o conjunto de meios lícitos e ilícitos para se obter a razão subjetiva do público e dos contendores.

Quais as razões para lançar mão da dialética erística?

Primeiro, porque o objeto pode ser verdadeiro, mas aos olhos do público ou aos próprios olhos, pode não ser. A verdade é diferente da aprovação dos ouvintes, por causa da perversidade humana, da vaidade, deslealdade e verborragia inerentes ao ser humano.

Se todos buscassem a verdade, à parte dos interesses pessoais, isso não ocorreria. Também porque necessitamos de tempo até elaborarmos ou esclarecermos os argumentos que temos. (Obs. Ex concessis = pelo que foi concedido)

Segundo Schopenhauer, há dois modos e dois métodos da dialética:

Modos:

Ad rem: à coisa, se dirige ao assunto em questão

Ad hominem: ao homem, com relação ao que a pessoa sabe

Métodos:

Direto: Nos fundamentos: Ataque à tese em seus fundamentos Nas consequências: Aceita a tese mas negamos que ela chegue à conclusão

Indireto: Apagogia: Aceita a tese e a levamos a uma contradição Instância: Apresentação de um exemplo em contrário à tese

 

Estratagemas:

1- Ampliação indevida Explicação: Generalização além dos limites válidos.

2- Homonímia sutil Explicação: Dois conceitos designados pela mesma palavra. “O senhor ainda não foi iniciados nos mistérios da filosofia Kantiana” “Ora, o que é cheio de mistérios não me interessa”.

3- Mudança de modo Explicação: Tomar de modo absoluto o que foi dito de modo relativo. O mouro é negro, mas tem os dentes brancos, portanto é ao mesmo tempo negro e não negro.

4- Pré-silogismo Explicação: Premissas diversas e confusas com o fim de ocultar o verdadeiro objetivo.

5- Premissas falsas Explicação: Uso intencional de premissas falsas. Exemplo: Se ele for de alguma religião, podemos usar como base os próprios dogmas dela.

 

6- Petição de princípio oculta Explicação: Postular o que se deseja comprovar. Sob outro nome, “Maluf não gasta, investe”, generalizando ou provando algo universal aos pedaços.

7- Perguntas em desordem Explicação: Muitas perguntas de modo pormenorizado, ocultando o que se quer admitir.

8- Encolerizar o adversário Explicação: Ser injusto, provocar raiva no adversário a fim de não o deixar aproveitar a vantagem.

9- Perguntas em ordem alterada Explicação: Perguntas em ordem diversa a fim de confundir o adversário.

10- Pista falsa Explicação: Quando o adversário propositalmente nega nossas afirmações, devemos afirmar em contrário para faze-lo admitir o que queremos.

 

11- Salto indutivo Explicação: Admitir a tese como estabelecida e reconhecida. Os ingênuos podem acreditar.

12- Manipulação semântica Explicação: Escolher um nome que favoreça nossa afirmação. Fervor religioso e fanatismo, colocar sob custódia e aprisionar, dificuldades financeiras e bancarrota,

13- Alternativa forçada Explicação: Apresentar duas escolhas, da qual ele vai escolher necessariamente a que nos interessa. “Deve-se obedecer ou desobedecer os pais?”

14- Falsa proclamação de vitória Explicação: Após o adversário ter admitido algumas premissas declaramos como aceita a conclusão.

15- Anulação do paradoxo Explicação: Apresentamos uma tese correta mas não totalmente evidente. Ex. Apresentar um exemplo ilustrativo.

 

16- Várias modalidades do argumentum ad hominem Explicação: Examinar se a afirmação não está em contradição com algumas das premissas anteriores.

17- Distinção de emergência Explicação: Quando o adversário nos pressiona, podemos nos safar por meio de uma diferenciação sutil.

18- Uso intencional da mutatio controvensie Explicação: Não deixar que o adversário conclua um argumento que vai nos derrotar, interromper, afastar a tempo o andamento.

19- Fuga do específico para o geral Explicação: Generalizar e atacar .

20- Uso da premissa falsa previamente aceita pelo adversário Explicação: Ao adversário admitir uma premissa falsa, não devemos perguntar pela conclusão, mas concluirmos nós mesmos.

 

21- Preferir o argumento sofístico Explicação: Quando o adversário faz uso de um argumentos aparente, é melhor contra atacar com outro argumento aparente.

22- Falsa alegação de petitio principii Explicação: Se o adversário nos forçar a admitir algo de que resultará a vitória, não a aceitamos com a alegação de ser um petitio principii.

23- Impelir o adversário ao exagero Explicação: Forçar com perguntas o adversário a extrapolar as suas afirmações, saindo do domínio em que ela é válida.

24- Falsa redução ao absurdo Explicação: Fabricação de consequências. A partir das proposições do adversário, utilizar deturpações e falsas conclusões para contradize-lo.

25- Falsa instância Explicação: Falsa prova em contrário.

 

26- Argumento reverso Explicação: Quando o argumento pode mais ser usado contra do que a favor dele.

27- Provocar a raiva Explicação: Quando o adversário se zanga por algum motivo, devemos insistir nesse ponto, talvez por ocultar um ponto fraco.

28- Argumento ad auditores Explicação: Faz-se uma objeção inválida, de modo a provocar risos no público iletrado. Para o riso, as pessoas estão sempre prontas.

29- Digressão Explicação: Começar um outro ponto subitamente.

30- Argumento dirigido ao sentimento de honra Explicação: Diante de autoridades no assunto, as pessoas tendem a acreditar. Expressões retóricas gregas e latinas, expressões técnicas tendem a impressionar. Citar livros já que ninguém vai tê-los em mão. “Chama-se de justas as coisas que aparentam ser” Aristóteles “A maioria tem muitas opiniões” Platão. “As pessoas são um mero eco da opinião alheia. Poucos sabem pensar, mas todos querem ter opiniões” Schopenhauer.

 

31- Incompetência irônica Explicação: Declararmo-nos ironicamente incompetentes de entender a opinião. É melhor quando se tem autoridade. Contra-ataque: Dizer que o assunto é fácil, então foi por falha de explicação ele não entendeu, e explicar de novo.

32- Rótulo odioso Explicação: Submeter a afirmação adversária a uma categoria odiosa: Isso é maniqueísmo, isso é nazismo, isso é idealismo, de forma a fazer o público identificar a categoria com a qual já tem preconceito.

33- Negação da teoria na prática Explicação: Dizer que na prática não vai funcionar.

34- Resposta ao meneio de esquiva Explicação: Se ele não responde, mas apenas se esquiva, devemos insistir nesse ponto.

35- Persuasão pela vontade Explicação: Colocar o assunto de forma a fazer com que as consequências não sejam favoráveis financeiramente. “Meia onça de vontade vale mais que uma tonelada de entendimento e convicção” - Schopenhauer “O intelecto não é uma luz que arde sem óleo, mas é alimentado pela vontade e pelas paixões” Francis Bacon

 

36- Discurso incompreensível Explicação: Assustar e desconcertar o adversário com palavreado sem sentido.

37- Tomar a prova pela tese Explicação: Fazer um argumento ad hominem passar por um ad rem.

38- Último estratagema Explicação: Dirigir o ataque à pessoa adversária.

 

FIM

 

 

 
 
   
   
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